TRINCHEIRA #14 06 JUN 2026

O erro que o contador não vai te contar

Founder chega com uma dúvida sobre precificação. A gente abre o financeiro, olha o DRE, e o problema não está no preço. Está no regime tributário.

A empresa fatura R$ 1,2 milhão por ano, carrega custo de pessoal alto, e opera no Lucro Presumido. Presunção de lucro de 32% para serviços. Calcula IRPJ e CSLL em cima disso. Só que a margem líquida real da operação chega a 8%. A empresa paga imposto sobre lucro que não existe.

Isso acontece mais do que parece. E acontece porque a decisão de regime virou rotina de contador, não decisão estratégica do gestor.

A escolha entre Simples, Lucro Presumido e Lucro Real não é detalhe operacional. É alavanca de margem.

No Lucro Real, a empresa apura IRPJ e CSLL sobre o lucro efetivo. Para quem opera com margem abaixo da presunção do Presumido, o Real quase sempre entrega carga menor. O problema é que o Real exige escrituração impecável, controle de custos por competência e time contábil preparado. Muita PME foge porque não tem a estrutura, não porque o regime seja pior.

No Simples Nacional, o teto de R$ 4,8 milhões de receita bruta anual ainda protege muita empresa. Mas o Simples cobra sobre faturamento, não sobre lucro. Empresa com margem líquida de 5% e alíquota efetiva de 11% no Simples está pagando mais imposto do que ganha.

A conta que ninguém faz: se você mudar de regime, quanto libera no caixa?

O caminho prático:

1. Pega o DRE dos últimos 12 meses e calcula a margem líquida real antes de IR e CSLL

2. Compara a alíquota efetiva atual com a simulação em cada regime

3. Leva para o contador o número, não a pergunta aberta. Pergunta aberta gera resposta genérica

4. Se a diferença entre regimes superar 3 pontos percentuais de alíquota efetiva, a troca paga qualquer custo de adequação em menos de um exercício

Troca de regime só no início do ano-calendário. A decisão para 2027 começa agora, no segundo semestre de 2026. Quem deixa para janeiro não tem tempo de estruturar a escrituração.

O regime certo não resolve empresa mal gerida. Mas regime errado penaliza empresa bem gerida. Essa diferença cabe no seu caixa.


Planejamento tributário 2026: Lucro Real ou Presumido?

Artigo publicado em abril de 2026 aponta 2026 como ano estratégico para revisão de regime tributário. Com a transição para o IVA Dual em curso, alíquotas de teste de 0,9% já rodando para CBS e IBS, e a extinção gradual de PIS e Cofins prevista para os próximos anos, empresas que não revisarem o enquadramento agora vão carregar distorções por até 48 meses.

Minha leitura

Tenho visto founders deixarem essa decisão para o contador sem entregar os números certos. O contador simula com faturamento projetado, não com margem real auditada. Resultado: a empresa fica três anos no regime errado e perde entre 4% e 9% de carga tributária que poderia ter evitado. Revisão de regime é decisão do gestor, não tarefa delegada.

Fonte: Audicon Contadores


Precificação sem margem real: o buraco que o faturamento esconde

Empresas que calculam preço a partir do custo direto e jogam um percentual fixo de margem bruta constroem uma ilusão. A margem bruta fecha no papel. O caixa não fecha no banco. O problema aparece quando o gestor soma despesas financeiras, pró-labore real, depreciação e carga tributária efetiva: a margem líquida cai de 20% para 4%, e o preço que parecia seguro vira armadilha.

Minha leitura

Na SAFIE a gente revisa contrato de cliente que chega com precificação montada sobre custo variável, sem absorver despesa fixa por unidade vendida. Em serviços, isso aparece direto: empresa fatura R$ 800 mil no ano, margem bruta de 35%, mas margem líquida de 3% porque ninguém alocou o custo do time de suporte no preço. Preço errado não se corrige com volume, se corrige com modelo.

Fonte: OSP Contabilidade


Regime e preço são as duas alavancas que mais founders deixam no automático. As duas juntas podem valer 10 pontos de margem.

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Lucas Mantovani

Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.

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