TRINCHEIRA #12 30 MAI 2026

A empresa fatura bem. O caixa discorda.

Já vi essa cena mais de uma vez: founder abre o extrato no fim do mês, a receita bateu a meta, e o saldo não fecha. Ele olha para os números sem conseguir apontar onde o dinheiro foi.

Não falta faturamento. Falta leitura.

A DRE gerencial resolve isso, mas a maioria das PMEs usa a DRE contábil como se fossem a mesma coisa. Não são. A DRE contábil serve ao fisco. A gerencial serve ao founder. Ela separa receita bruta de receita líquida, isola o custo real de cada linha de produto, e deixa a margem de contribuição visível antes de qualquer despesa fixa entrar no cálculo.

Quando a DRE gerencial fica pronta, o diagnóstico aparece rápido: a margem líquida fica presa em 4% ou 5%, enquanto o setor pratica 12% ou 14%.

O problema quase nunca é preço baixo. O problema aparece em três lugares:

1. Custo de produto mal alocado. O frete, a embalagem e a comissão do vendedor entram como despesa operacional, não como custo variável. A margem bruta parece saudável. A margem líquida contradiz isso.

2. Despesa fixa invisível. Pro-labore subfaturado, aluguel do estoque contabilizado fora do negócio, parcela de equipamento tratada como caixa. Cada um desses itens corrói a margem sem aparecer no radar.

3. Mix de produto errado. A empresa vende bastante de um produto que gera margem de contribuição de 8% e pouco de outro que gera 34%. O total cresce, o lucro não acompanha.

A DRE gerencial não substitui contador. Ela obriga o founder a fazer a pergunta certa: o que eu vendo que realmente sustenta o negócio?

Aplicação prática:

Pegue os últimos três meses de faturamento. Separe as receitas por linha de produto ou serviço. Para cada linha, calcule: receita líquida menos custos variáveis diretos. O resultado é a margem de contribuição por linha. Some as despesas fixas reais do período. O que sobrar é o lucro operacional. Se alguma linha aparecer negativa, você não precisa esperar o fim do ano para agir.

Esse exercício leva duas horas com uma planilha simples. A decisão que ele gera pode valer 6 pontos percentuais de margem.


Reforma e PME: juros a 24,6% ao ano complicam a transição

A Gazeta do Povo publicou em 15 de maio levantamento sobre o impacto duplo que as PMEs enfrentam neste momento: a reforma tributária exige adaptação de processos e sistemas, enquanto o custo do crédito para essas empresas atingiu 24,6% ao ano. O cenário comprime caixa por dois lados simultaneamente.

Minha leitura

Tenho visto clientes que precisam financiar a adaptação à reforma (novos sistemas, consultorias, ajuste de precificação) e recorrem a crédito bancário sem calcular o custo real. A 24,6% ao ano, uma linha de R$ 80 mil para capital de giro acumula R$ 19,7 mil de juros em 12 meses. Antes de captar, vale refazer o DRE com o custo financeiro dentro da estrutura, não fora dela.

Fonte: Gazeta do Povo


Financial model para captação: o que realmente convence investidor

Publicado há quatro dias no Syhus, o artigo detalha como montar um modelo financeiro para rodadas de investimento. O ponto central: DRE, balanço, fluxo de caixa e KPIs precisam se conectar de forma coerente. Investidor experiente identifica modelo construído em silos em menos de dez minutos de leitura.

Minha leitura

Founder que atendo há dois anos chegou com um financial model onde o DRE projetava EBITDA positivo no mês 14, mas o fluxo de caixa mostrava saldo negativo no mês 11. As premissas de recebimento não conversavam com o ciclo de cobrança real. O investidor devolveu o modelo antes da segunda reunião. Coerência entre as três peças vale mais do que projeção otimista em qualquer linha isolada.

Fonte: Syhus


IVA muda o momento do pagamento, não só o quanto

O artigo do Jota de novembro de 2025 detalha como a mudança na lógica do IVA altera o momento do recolhimento tributário. Hoje, parte dos tributos incide sobre o faturamento com prazo de apuração. Com o IVA, o recolhimento acontece no momento da operação, antecipando a saída de caixa em ciclos onde o recebimento vem depois.

Minha leitura

Na prática, empresas de serviços B2B que recebem em 30 ou 45 dias vão recolher o tributo antes de ver o dinheiro entrar. Já recomendei para dois clientes que mapeiem o ciclo médio de recebimento e calculem qual volume de caixa precisam manter parado só para cobrir esse descasamento. Para negócio que opera com capital de giro apertado, esse número muda o tamanho da reserva necessária.

Fonte: Jota


Margem não some por acaso. Some porque ninguém foi olhar onde ela foi.

Compartilho mais análises assim no Instagram. Se quiser acompanhar o raciocínio no dia a dia, me segue lá: @lucasm.mantovani

Lucas Mantovani

Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.

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