TRINCHEIRA #11 27 MAI 2026

O gestor que todo mundo quer ter saiu pela porta dos fundos

Numa PME de 40 pessoas que atendo há cerca de dois anos, o sócio-operacional me ligou numa sexta às 18h. O analista sênior que tocava o financeiro tinha pedido demissão. Sem aviso prolongado, sem briga, sem contraproposta que resolvesse. Simplesmente foi.

Quando puxamos a história, o problema não nasceu naquele dia. Nasceu doze meses antes, quando a empresa cresceu de 18 para 40 pessoas e ninguém formalizou para onde cada liderança intermediária estava indo. O analista sênior virou responsável por três funções, sem título, sem salário proporcional e sem nenhuma conversa sobre o próximo degrau. Ele esperou. Não chegou nada. Aceitou proposta de fora em 48 horas.

Custo direto de substituição: em torno de R$ 28 mil entre recrutamento, onboarding e curva de aprendizado. Custo indireto: três meses de operação financeira rodando abaixo da capacidade.

O problema não era salário. Era ausência de pipeline.

Pipeline de liderança não é programa de trainee. É a clareza de onde cada pessoa pode chegar dentro da estrutura atual. Em PME, isso raramente precisa de consultoria de R$ 80 mil. Precisa de três coisas: uma conversa franca por semestre sobre trajetória, um critério claro para promoção (não subjetivo, não "quando a empresa crescer"), e um gestor imediato que saiba ter essa conversa sem travar.

O que tenho recomendado para founders nessa fase é simples: mapeie os 5 a 8 profissionais que, se saírem ao mesmo tempo, param a operação. Para cada um, existe hoje uma resposta clara sobre o próximo passo dentro da empresa? Se a resposta for "mais ou menos" ou "estamos pensando nisso", o risco já existe.

A rotatividade em PMEs brasileiras subiu para 43% em 2025, segundo o Panorama Sólides. Quase metade da saída involuntária se concentra nos primeiros 18 meses de uma contratação. Mas o dado que mais importa na prática: profissional sênior sai por ausência de perspectiva, não por salário ruim. Salário segura por 90 dias. Trajetória clara segura por anos.

Aplicação prática: abra uma planilha agora. Liste os 6 profissionais mais críticos da sua operação. Para cada um, escreva em uma linha: qual o próximo passo de carreira possível dentro da empresa e quando esse passo pode acontecer. Se você travar em mais de dois nomes, você tem um problema de pipeline, não de folha de pagamento.


Brasil certifica 75 empresas em gestão de pessoas em 2026

O Top Employers Institute certificou 75 organizações brasileiras em 2026, consolidando o país como líder regional no ranking global de práticas de gestão de pessoas. O levantamento avalia critérios como desenvolvimento de lideranças, ambiente de trabalho e estratégia de talentos. O Brasil liderou a América Latina pelo terceiro ano consecutivo.

Minha leitura

Vejo esse tipo de ranking circulando em grupos de RH e founders comemoram quando a empresa do concorrente entra na lista. O problema: das 75 certificadas, nenhuma tem menos de 500 funcionários. PME não entra nesse jogo, e não precisa entrar. O que precisa é de um processo de feedback semestral funcionando e critério de promoção escrito, não certificado de 40 páginas.

Fonte: CNDL


Pesquisa mapeia gestão de pessoas nas PMEs brasileiras

O Panorama Gestão de Pessoas Brasil 2025 da Sólides ouviu mais de 3.200 empresas e apontou que 43% das PMEs registraram rotatividade acima de 30% no ano. Desenvolvimento de lideranças intermediárias e retenção de talentos aparecem como os dois maiores desafios relatados pelos gestores respondentes.

Minha leitura

Tenho recomendado para clientes que esse dado de 43% de rotatividade seja lido como sinal de ausência de estrutura, não de mercado aquecido. Founder que atendo no setor de serviços perdeu 4 coordenadores em 14 meses e atribuiu ao "mercado competitivo". Quando mapeamos, cada saída tinha o mesmo padrão: sem conversa de trajetória nos últimos 6 meses. Rotatividade alta quase sempre delata pipeline inexistente.

Fonte: Sólides


Pipeline de liderança em PME: o modelo que funciona

Um estudo publicado pela VBMC adaptou o modelo de Pipeline de Liderança de Ram Charan para pequenas empresas, identificando que PMEs falham principalmente na transição entre o profissional individual e o primeiro papel de gestão. A pesquisa aponta que 67% dos novos gestores em PMEs não recebem nenhuma preparação formal antes de assumir equipes.

Minha leitura

Esse número de 67% sem preparo bate com o que vejo na prática toda semana. O analista vira coordenador numa sexta, na segunda já responde por três pessoas, e a única orientação que recebe é "você dá conta". Na SAFIE a gente passou por isso na virada de 8 para 15 pessoas: quem promovemos sem preparo entregou resultado pior como gestor do que entregava como individual. Promover sem estrutura cria dois problemas onde havia zero.

Fonte: VBMC


Gestão de pessoas em PME não vira prioridade quando a empresa cresce. Vira urgência quando o profissional certo pede demissão.

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Lucas Mantovani

Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.

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