TRINCHEIRA #6 11 MAI 2026

A IA não trava na ferramenta. Trava nos dados.

Tem uma contradição no meio de campo que poucos founders param para resolver.

O Brasil aparece à frente da média global na adoção estratégica de IA: 44% das empresas brasileiras relatam avanços reais, contra 38% no mundo. Número que impressiona. Número que merece uma pergunta antes de qualquer comemoração.

Avançar em quê, exatamente?

Tenho visto de perto o que acontece quando um gestor decide "implementar IA" na operação. Ele contrata uma plataforma, conecta ao CRM, pede para o time usar. Três semanas depois, o sistema produz resposta genérica, recomendação sem contexto, ou simplesmente para de funcionar porque os dados de entrada estão desorganizados. A ferramenta não falhou. A base falhou.

Existe um número que explica isso melhor do que qualquer análise: apenas 17% das empresas brasileiras afirmam ter dados acessíveis e estruturados para alimentar IA de forma funcional. Oitenta e três por cento operam com dados dispersos, sem padrão, sem dono claro, sem processo de atualização.

Isso não é problema de tecnologia. É problema de governança básica.

A IA agêntica, que começa a entrar em operação agora em 2026, exige ainda mais. Um agente que toma decisão autônoma precisa de dado limpo, atualizado e com contexto de negócio embutido. Sem isso, o agente automatiza o erro em escala.

O gargalo real não é budget de software. É a qualidade do dado que a empresa consegue entregar.

O caminho prático que tenho recomendado antes de contratar qualquer ferramenta nova:

Mapeie três processos onde a decisão depende de dado hoje. Identifique quem produz esse dado, onde ele fica registrado, com qual frequência e quem acessa. Se qualquer uma dessas respostas for "depende" ou "não sei ao certo", a empresa ainda não está pronta para IA agêntica, e qualquer investimento nessa direção vai chegar antes do prazo de maturidade.

Construir base de dados antes de comprar ferramenta não é atraso. É a única sequência que funciona.

Founder que pula essa etapa assina contrato de software, paga licença por doze meses, e no décimo segundo mês descobre que o time voltou para a planilha.


Brasil lidera adoção de IA, mas base de dados trava escala

Levantamento divulgado há quatro dias aponta que 44% das empresas brasileiras relatam avanços na adoção estratégica de IA, índice acima da média global de 38%. Apesar do número positivo, o mesmo cenário revela que investimento e maturidade operacional ainda ficam aquém do ritmo de adoção declarado.

Minha leitura

O que observo na prática é que o número de 44% conta adoção, não resultado. Atendi cliente de serviços no começo deste ano que havia contratado três ferramentas de IA em seis meses e não conseguia medir impacto em nenhuma delas porque os dados de entrada mudavam toda semana sem critério. Adoção sem dado estruturado produz custo, não vantagem competitiva.

Fonte: Veja Economia


Apenas 17% das empresas têm dados prontos para IA agêntica

Levantamento aponta que somente 17% das empresas brasileiras declaram ter dados acessíveis e estruturados para suportar IA agêntica em 2026. O cenário coloca a maioria das operações em risco real de automatizar processos com base em dados inconsistentes, amplificando erros em vez de ganhos.

Minha leitura

Vejo isso quase toda semana em operação de médio porte. O gestor aprova budget para agente de IA, o time implementa em 30 dias, e o agente começa a tomar decisão errada porque o dado de estoque tem defasagem de 48 horas. O problema não apareceu na demo porque a demo usou dado limpo de laboratório. Governança de dado precede qualquer conversa sobre agente autônomo.

Fonte: LinkedIn Pulse


2026 marca a transição de copilotos para agentes autônomos

Análise publicada em abril de 2026 descreve a mudança de paradigma em curso: se 2024 e 2025 foram os anos dos copilotos de IA (assistentes que geram texto ou código sob demanda), 2026 inaugura a era dos agentes, sistemas que executam tarefas de forma autônoma com múltiplos passos e integrações entre ferramentas.

Minha leitura

Na SAFIE, a gente testou agente de triagem de documentos contratuais no primeiro trimestre deste ano. Funcionou bem onde o processo tinha dono e critério escrito. Travou onde a regra vivia na cabeça do analista. A transição de copiloto para agente expõe exatamente o que a empresa nunca formalizou, e isso dói antes de ajudar.

Fonte: Zappts


Quem resolve o dado resolve a IA. Quem pula o dado compra ferramenta duas vezes.

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Lucas Mantovani

Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.

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