Existe uma mudança na Reforma Tributária que pouca gente está discutindo com a seriedade que merece. Não é a alíquota do IVA Dual. Não é a transição de cinco tributos para dois. É o Split Payment.
A lógica é direta: quando um cliente pagar por um produto ou serviço, o sistema financeiro vai reter automaticamente o imposto e repassar direto ao governo. O dinheiro entra na sua conta já deduzido. Você não toca no tributo, não gerencia prazo de recolhimento, não tem janela de float.
Para quem usa o imposto como capital de giro temporário, essa mudança machuca.
E a maioria das PMEs usa. O founder que fatura em D+30 e recolhe tributos em D+60 opera com uma gordura de caixa que, na prática, é dinheiro do governo. Esse modelo acaba.
O problema não é pagar imposto. O problema é que o ciclo financeiro da empresa foi calibrado com base numa realidade que vai mudar.
Eu tenho visto clientes com operação saudável no papel que, quando se projeta o fluxo de caixa sob o novo regime, apresentam aperto de capital de giro em meses específicos do ciclo. Não porque a empresa piorou. Porque o caixa vai precisar ser maior para sustentar a mesma operação.
O que fazer agora, antes de 2027 chegar com força total:
1. Simule o ciclo de caixa sem o float tributário. Pegue os últimos 12 meses de recolhimento e elimine a diferença entre faturamento e pagamento do tributo. Esse delta é o buraco potencial.
2. Revise contratos com prazo de pagamento longo. Cliente que paga em 60 ou 90 dias vai comprimir mais a margem operacional num cenário de Split Payment. Reprecificar ou renegociar prazos agora custa menos do que um limite de crédito emergencial em 2027.
3. Reveja sua estrutura de regime tributário. A transição afeta Lucro Real, Lucro Presumido e Simples Nacional de formas distintas. Quem está no Lucro Presumido com margens reais abaixo do presumido vai sentir mais.
A Reforma está em fase de teste com alíquotas de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS em 2026. O impacto real vem na transição completa entre 2027 e 2033. Quem estrutura agora ganha sete anos de vantagem operacional sobre quem vai correr atrás depois.
O novo modelo de cobrança da Reforma Tributária prevê retenção automática do imposto no momento do pagamento, via sistema financeiro. Empresas que recolhem tributos com prazo maior que o faturamento perdem a janela de float que hoje funciona como capital de giro informal. O Split Payment entra em operação gradual a partir de 2027, mas a fase de testes com alíquotas simbólicas já rodou em 2026.
Tenho recomendado para clientes do setor de serviços que mapeiem o float tributário atual como primeiro passo. Em dois casos atendidos nos últimos meses, o delta entre faturamento e recolhimento representava entre 8% e 12% do capital de giro disponível. Quando esse colchão some, a empresa não quebra, mas para de crescer porque o caixa não sustenta o ciclo. Estruturar limite de crédito pré-aprovado antes de 2027 custa menos juros do que contratar emergencialmente depois.
Fonte: Jettax
O Portal do Comércio publicou análise prática sobre o impacto do novo modelo de tributação do consumo nas margens operacionais. Com a mudança na cadeia de crédito e a alteração nos prazos de compensação, empresas com contratos de longo prazo fechados sob a lógica tributária antiga vão absorver a diferença de custo sem conseguir repassar. A recomendação é revisar precificação e cláusulas contratuais antes da transição se consolidar.
Na SAFIE a gente revisou cláusula de reajuste em três contratos de serviço continuado em março deste ano, antecipando exatamente esse problema. Contrato sem gatilho de reajuste tributário amarra a margem por 24 ou 36 meses. Founder que assina contrato plurianual hoje sem incluir cláusula de repasse de variação tributária vai carregar o custo da reforma no próprio bolso até o vencimento.
Fonte: Portal do Comércio
Empresas no Lucro Real ou Lucro Presumido acumulam créditos de PIS e COFINS que podem ser compensados ou restituídos via processo administrativo na Receita Federal. O prazo para reaver valores pagos indevidamente alcança 60 meses retroativos. A maioria das PMEs não faz esse levantamento porque não tem estrutura interna para isso, deixando dinheiro parado sem perceber.
Vejo isso com frequência em empresa de tecnologia e serviços com faturamento entre R$ 2 milhões e R$ 15 milhões anuais. Fizemos o levantamento para um cliente no ano passado e identificamos R$ 180 mil em créditos de PIS/COFINS acumulados em 48 meses. O processo de compensação levou quatro meses e não exigiu ação judicial. Antes de captar ou contrair dívida, vale verificar o que a empresa já pagou a mais.
Fonte: Migalhas
Reforma tributária não é pauta de contador. É pauta de founder.
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Lucas Mantovani
Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.
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