Oitenta e sete mil, setecentos e quatorze cortes de emprego ligados à IA só em 2026. Esse número já supera toda a soma de 2024 e 2025 combinados.
O dado vem de levantamento publicado pelo Moneycontrol em agosto, compilando dados de rastreadores globais de demissões em tech. Oracle cortou mais de 25 mil postos. Block e Amazon vincularam as reduções explicitamente à automação por IA.
Mas tem um detalhe que a HBR levantou em janeiro deste ano: a maioria dessas demissões aconteceu com base no potencial da IA, antes de qualquer ganho mensurável de produtividade ter sido registrado nas operações.
Empresas demitiram na expectativa. A IA ainda estava em implantação, alguns projetos nem tinham saído do piloto, e o headcount já tinha caído.
Particularmente, vejo esse movimento criando um problema estrutural que vai aparecer em 18 a 24 meses: a empresa cortou o time que carregava o conhecimento operacional antes de a IA conseguir absorver esse conhecimento. O resultado é um buraco que nenhum modelo de linguagem preenche.
O que observo na prática é que as empresas que saem bem desse ciclo são as que trataram IA como reestruturação de função, não como substituição de cabeça. O analista que passava oito horas gerando relatório passou a revisar e interpretar. O time de suporte que atendia chamados simples migrou para resolução de casos complexos. A conta de headcount pode até fechar igual, mas a operação sobe de andar.
Quem demitiu primeiro e depois tentou implantar IA vai encontrar o caminho inverso: gastar seis meses treinando modelo com dados de qualidade duvidosa, sem ninguém que conheça a operação suficientemente para validar o output.
Para quem opera empresa no Brasil, o dado relevante aqui não é a quantidade de demissões globais. É a sequência dos eventos: corte antes de entrega. Essa ordem importa mais do que qualquer projeção de ROI.
O volume global de venture capital chegou a US$ 510 bilhões no primeiro semestre de 2026, com 43% desse capital concentrado em startups de inteligência artificial. O número representa recorde histórico e foi reportado pela InfoMoney em julho, com base em dados agregados de fundos globais.
No Brasil, o cenário segue assimétrico: o ecossistema conta com 26 startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, e a primeira IA jurídica da América Latina, a Enter, captou US$ 100 milhões e entrou no clube dos unicórnios.
Vejo esse dado de 43% em IA como um sinal de concentração, não de oportunidade difusa. Fundo que antes diversificava em logística, saúde e edtech agora entra numa tese única e concorre com capital americano e asiático pelo mesmo ativo. Para o empresário brasileiro buscando captação fora do eixo de IA, o ambiente ficou mais seletivo em 2026 do que em 2024. A janela existe, mas exige tese muito mais específica para atrair atenção de fundo que tem 43% da carteira já comprometida num único território.
Fonte: https://www.infomoney.com.br/business/startups-ia-impulsiona-recorde-de-investimentos-de-venture-capital-em-2026/
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Lucas Mantovani
Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.
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