TRINCHEIRA #26 22 JUL 2026

O acordo que ninguém assina até precisar

Founder abre empresa com o sócio de dez anos de confiança. Batem no handshake, registram o contrato social, e deixam o acordo de sócios "pra depois". Dois anos mais tarde, um quer vender, o outro não. Um quer distribuir dividendos, o outro quer reinvestir. Um se afasta da operação, o outro fica com a carga dobrada.

O acordo que ficou pra depois vira o processo que dura três anos.

Tenho visto isso se repetir com frequência suficiente para reconhecer o padrão na segunda reunião com o cliente. A empresa cresce. O relacionamento, sem regra escrita, não acompanha o crescimento. E quando o conflito aparece, não existe instrumento para resolver dentro da casa. O conflito vai para fora.

O custo disso não é só o honorário do advogado litigante. É o founder que passa seis meses com a cabeça no processo em vez de na operação. É o time que percebe a tensão societária e começa a atualizar o LinkedIn. É o cliente que ouve o rumor e segura o contrato de renovação.

O acordo de sócios não serve para o momento em que tudo vai bem. Serve para o momento em que algo vai mal.

E os pontos que mais causam dano quando ficam de fora: cláusula de deadlock (o que acontece quando os sócios empatam numa decisão relevante), drag along e tag along (o que o sócio minoritário pode ou não pode fazer numa venda), mecanismo de saída com valuation predefinido, e prazo de não competição pós-saída.

Nenhum desses pontos é agradável de discutir quando a sociedade começa. Exatamente por isso precisam ser discutidos antes.

Aplicação prática: Se você tem sociedade sem acordo formalizado, o primeiro movimento é listar três cenários de conflito plausível para o seu negócio específico. Não cenários genéricos de livro, cenários reais: "e se um de nós receber proposta de emprego numa empresa concorrente?", "e se um de nós precisar sair por questão de saúde por seis meses?", "e se aparecer um comprador disposto a pagar 5x o faturamento anual e um sócio não quiser vender?". Esses três cenários viram o roteiro da conversa com o advogado. O acordo sai em duas semanas, não em seis meses.


Acordo de sócios: proteção real ou papel bonito?

Artigo publicado em julho de 2026 pelo escritório Baptista detalha o que faz um acordo de sócios funcionar na prática: coerência com o contrato social, aderência à realidade operacional da empresa, e cláusulas que sobrevivem a mudanças de cenário. O texto aponta que acordos mal redigidos criam falsa sensação de segurança e, na prática, não resistem a uma disputa real entre sócios.

Minha leitura

Vejo esse erro em clientes que chegam com acordo de dez páginas que nunca foi atualizado após uma captação ou entrada de novo sócio. O documento não reflete mais o cap table real, e a cláusula de drag along referencia percentual que não existe mais. Na hora de usar, o acordo não segura nada. Documento societário precisa de manutenção igual a contrato comercial.

Fonte: Baptista Advogados


Cap table inconsistente trava rodada antes de começar

Artigo de julho de 2026 publicado no portal Advogado de Startup descreve como um cap table com informações contraditórias, erros de cálculo ou eventos societários não registrados derruba a due diligence de rodadas de investimento. O texto detalha que investidores profissionais encerram negociação ao identificar inconsistências na capitalização, independente do potencial do negócio.

Minha leitura

Acompanhei rodada de pre-seed em 2025 que travou por 40 dias por conta de opções concedidas informalmente a dois colaboradores dois anos antes, sem registro societário nenhum. O investidor não negou o aporte por causa disso, mas repriced o valuation em 20% para cobrir o risco jurídico percebido. Cap table limpo não é detalhe operacional, é ativo de negociação.

Fonte: Advogado de Startup


Governança chata no papel protege o founder na hora que mais importa.

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Lucas Mantovani

Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.

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