TRINCHEIRA #20 27 JUN 2026

O imposto que você paga antes de receber

Uma empresa de serviços fecha contrato de R$ 200 mil em abril. Emite nota em maio. Recebe em julho. Com o sistema atual, o ISS e o PIS/Cofins entram no cálculo no regime de competência, mas o caixa tem alguma folga.

Com a nova dinâmica do IBS e da CBS, o split payment captura o tributo direto na liquidação financeira da operação. O imposto sai no momento em que o dinheiro transita, não quando o gestor decide recolher.

Isso não é detalhe operacional. É mudança de lógica de caixa.

A empresa que faturava R$ 500 mil por mês e carregava 30 dias de tributos no caixa antes de recolher vai perder esse colchão inteiro. Em termos práticos: se a alíquota combinada de IBS mais CBS girar em torno de 26% a 28% sobre o faturamento bruto, o float tributário some. O gestor que usava esses recursos para capital de giro vai precisar recompor de outro lugar.

O problema não aparece em empresas que já trabalham com fluxo de caixa disciplinado. Aparece naquelas que confundem caixa com resultado. E esse grupo representa a maioria das PMEs que atendo.

O caminho prático tem três movimentos:

Primeiro, mapear o float atual. Quantos dias de tributo a empresa carrega entre a competência e o recolhimento? Multiplica pela alíquota efetiva e pelo faturamento mensal. Esse número representa o buraco que o split payment vai abrir.

Segundo, renegociar prazos de recebimento antes de 2027. Contratos com clientes que pagam em 60 ou 90 dias viram problema estrutural quando o tributo sai na liquidação. Antecipar recebíveis ou renegociar condições comerciais agora custa menos do que refinanciar dívida depois.

Terceiro, revisar o regime tributário ainda em 2026. Empresas no Lucro Presumido com margens apertadas podem ter vantagem ao migrar para o Lucro Real, onde o crédito de IBS na cadeia de insumos é aproveitado integralmente. Mas a janela para trocar de regime fecha em dezembro.

Quem esperar a poeira baixar vai reorganizar o caixa no sufoco.

A transição do IVA não é crise. É uma reorganização de timing financeiro. Quem estrutura o fluxo agora sai na frente; quem ignora vai buscar crédito de emergência em 2027 pagando taxa de PME em apuros.


IBS e CBS mudam a dinâmica de arrecadação em 2026

A nova dinâmica financeira do IBS e da CBS, detalhada em análise de junho de 2026 da Troia Consultoria, mostra que a arrecadação passa a ocorrer diretamente na liquidação da operação financeira, via split payment. O tributo não espera o ciclo de apuração mensal: ele sai no momento em que o pagamento transita entre as contas. Para empresas com ciclos longos de recebimento, o impacto no capital de giro começa antes do que a maioria dos gestores calcula.

Minha leitura

Tenho visto cliente de serviços B2B com prazo médio de recebimento de 45 dias entrar em 2026 sem nenhum ajuste no fluxo de caixa projetado. O float tributário que usavam como capital de giro informal some na virada do modelo. Recomendo mapear esse número agora, antes que vire déficit com nome de "sazonalidade".

Fonte: Troia Consultoria


Reforma tributária: janela de 2026 para trocar de regime

Artigo da Fenafisco de fevereiro de 2026 detalha que o novo sistema de tributação do consumo entra em fase operacional ainda neste ano, com alíquotas de teste de IBS e CBS rodando em paralelo com os tributos atuais. Empresas têm até dezembro de 2026 para reavaliar enquadramento entre Lucro Real, Presumido e Simples Nacional antes que a transição plena torne a mudança mais cara e complexa.

Minha leitura

Founder que atendo há dois anos no setor de tecnologia faturou R$ 4,2 milhões em 2025 no Lucro Presumido e nunca revisou o regime. Quando simulamos o Lucro Real com aproveitamento integral de créditos de PIS/Cofins sobre insumos de software, a diferença chegou a R$ 180 mil ao ano. A janela de dezembro de 2026 para trocar fecha mais rápido do que parece.

Fonte: Fenafisco


Planejamento tributário que fica na gaveta vira imposto que sai do caixa sem aviso.

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Lucas Mantovani

Empresário. Advogado. Co-fundador da SAFIE.

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